AS INDICAÇÕES CULTURAIS DOS BOLSISTAS FIXE

A primeira edição do Festival FIXE trouxe uma proposta de conexão com jovens periféricos da cidade de São Paulo. Através de um chamamento, foram selecionados seis Curadores Bolsistas que, junto a um mentor indicado pelo FIXE, estão desenvolvendo um trabalho de pesquisa e curadoria artística para apresentar novos talentos nas mesmas áreas trabalhadas pelo festival: música, cinema (audiovisual), artes visuais, literatura, teatro e gastronomia. A cada semana apresentaremos as sugestões de um desses curadores. Hoje iremos conhecer as recomendações de Gracielly Guedes

 

MÚSICA

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DEASSALTO “Agora eu vou no parque relaxar / a mente a milhão / descendo a Belmira.” Se você, assim como eu, já desceu a Belmira com a mente a milhão, você vai sentir o impacto desse verso da música “A Pele Que Habito“, do grupo Deassalto, um grupo independente de RAP e poesia marginal do Grajaú. O grupo traz em seu repertório músicas cheias de referências de ancestralidade, força, revolta e beleza, que denunciam a violência e o preconceito, mas que também exaltam e provocam o orgulho de habitar esse território e de se expressar pela arte. O Deassalto se destaca ao falar de como é ser uma bixa preta no HIP HOP e faz isso muito bem em um show sensível, envolvente, e que é um verdadeiro convite para festejar! Como mulher grajauense que teve seus primeiros contatos com a arte através do HIP HOP e hoje trabalha na área, Deassalto me atravessa sendo um grito de resistência e um despertar para ocupar lugares e bater de frente.

 

CINEMA

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COLETIVO QUEBRAMUNDO –  É uma das maiores referências do audiovisual no Grajaú, sempre presente em festas, shows, exposições e feiras. Também é responsável por um número significativo de videoclipes de artistas locais. Com uma qualidade ímpar, o coletivo conseguiu construir uma linguagem muito particular, de forma que a gente reconhece o trabalho só de ver. O Quebramundo também promove festivais e oficinas, horizontalizando o acesso ao audiovisual dentro do território.

 

ARTES VISUAIS

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CORRE COLETIVO – Pensar em artes visuais é pensar um pouco sobre como o olhar ao redor impacta, há arte em tudo, principalmente aqui na quebrada. O Corre Coletivo tem um trabalho que perpassa a comunicação, a criação e difusão de conteúdo, as artes e a educação. Recentemente lançaram uma revista em quadrinhos inspirada em um jovem que imagina o vírus da Covid19 como um vilão e sua irmã como uma heroína, além disso promoveu a distribuição digital e física da revista pelo território. Essa e outras ações me despertam um olhar extremamente cuidadoso com as nossas crianças e adolescentes, nesse momento difícil de isolamento e medo, a imaginação é um dos poucos recursos que nos restam e que resiste apesar do roubo provocado pela violência do estado. O Corre traz a sensibilidade e subjetividade da arte junto com o poder e objetividade da comunicação, e essa mistura, nesse momento, é justamente o que me traz fé na educação, nas crianças e no nosso futuro.

 

TEATRO

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CIA. ENCHENDO LAJE & SOLTANDO PIPA – Há 17 anos promovendo ações na região do Grajaú, além das obras sensíveis e que atravessam a nossa história de forma muito pessoal, a companhia traz os cortejos pelo bairro, acessando de forma horizontal todo o público ali existente, que é mais que público no fim das contas. Através das artes cênicas a companhia pesquisa as relações de opressão social no contexto das periferias urbanas, acumulando espetáculos teatrais, saraus em praças e ruas e ações de formação. Pessoalmente, o que mais se destaca no trabalho da companhia é justamente tornar tudo tão acessível, horizontal e interativo, fazendo com que as pessoas se sintam acolhidas e protagonistas, o que nem sempre é possível na periferia.

 

LITERATURA

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MARIA VILANI – Talvez seja um clichê indicar Maria Vilani para a categoria literatura. Além de referência, ela também é conhecida por ser a mãe do rapper Criolo. As obras e as oficinas de Vilani foram e ainda são responsáveis por salvar diversas vidas no Grajaú, direta ou indiretamente. Seu trabalho como poeta, filosofa e educadora teve como fruto a influência na vida de jovens escritores e de toda uma geração de poetas marginais que ergueram espaços de compartilhamento de poesia e saberes. Dona Maria Vilani visita saraus e slams, está sempre presente em rodas de conversa no território e traz sempre um olhar calmo e acolhedor. Talvez, um dos momentos mais saudosos da minha juventude tenha sido sentar ao lado dela no Sobrenome Liberdade, um dos grandes saraus do Grajaú, e ouvi-la falar sobre educação e a possibilidade de escolhas na vida. Naquele momento eu soube que o nosso caminho é árduo, mas é possível, e quantos outros jovens souberam disso através do legado de Maria Vilani? Eu tenho certeza que não somos poucos.

 

MODA

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CHITA COLETIVO – Com a intenção de conscientizar e viabilizar a moda na periferia, o Chita nasce em 2019 trazendo o projeto Periferia Criando Moda, onde se pensava e discutia a moda na periferia e em outros ambientes, fornecendo material teórico e promovendo oficinas práticas. Tive a honra de acompanhar a primeira aula, e um pouco do processo de produção dos encontros. A equipe conseguiu um espaço, decorou, cuidou e o resultado era um ambiente acolhedor e de muita troca, aulas lindas com temas e propostas riquíssimas, mas o que realmente se destacou para mim foi o olhar cuidadoso quando discutimos sobre encontrar roupas grandes em brechós. Sabemos que o movimento de reuso é lindíssimo e importante, mas, por vezes, ignoramos o fato de que é difícil encontrar roupas para pessoas gordas, isso em toda a indústria, mas principalmente nos brechós. O coletivo tem um olhar amplo, que vai desde a ocupação de uma casa que é uma associação de mulheres do Grajaú até traçar objetivos para ocupar espaços que são negados aos nossos. Atualmente o coletivo está em processo de gravar o documentário Modos periféricos – Narrativas por meio da moda, sobre as vivências de moda na quebrada, terminando com a realização de oficinas e desfile.

GASTRONOMIA

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CAFÉ NA MATA – É um ponto de economia solidária localizado após a primeira balsa, na Vila Histórica do Bororé, o que deixa o passeio ainda mais interessante. O destaque é a comida totalmente artesanal e proveniente da agricultura familiar, orgânica e local. O Café conta com mais de 30 opções gastronômicas, tem programação de feiras, oficinas, exposições e roteiros de turismo de bike e de barco. Visitar o café é como visitar um amigo, é acolhedor, é gostoso, é aconchegante e além de um ambiente lindo e com uma bela paisagem no caminho. A comida é deliciosa e foi lá que eu tomei o café mais gostoso que eu já provei na vida. Acredito que no pós-pandemia, o espaço venha a se tornar referência de lazer e gastronomia na região, não perdendo em nada para grandes espaços centrais e ainda mantendo toda ancestralidade e delicadeza que o Grajaú pode proporcionar.

 

crédito das fotos:

Coletivo Chita: foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento

Café na mata: instagram @cafenamatasp

Foto de capa: instagram @ocorrecoletivo