CURADORES BOLSISTAS DO FIXE APRESENTAM NOVOS TALENTOS

A primeira edição do Festival FIXE trouxe uma proposta de conexão com jovens periféricos da cidade de São Paulo. Através de um chamamento, foram selecionados seis Curadores Bolsistas que, junto a um mentor indicado pelo FIXE, estão desenvolvendo um trabalho de pesquisa e curadoria artística para apresentar novos talentos nas mesmas áreas trabalhadas pelo festival: música, cinema (audiovisual), artes visuais, literatura, teatro e gastronomia. A cada semana apresentaremos as sugestões de um desses curadores. Hoje iremos conhecer as recomendações da Bruna Fernanda.

 

 

MÚSICA

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MAU SANGUE Formada em 2017, a banda conta atualmente com a participação de quatro integrantes, sendo três mulheres no vocal, guitarra e baixo, e um homem na bateria. A sonoridade da banda mistura influências musicais de diferentes vertentes do punk e do metal, com letras politicamente engajadas. Com uma mulher trans no vocal, a Mau Sangue se destaca por abordar temáticas de gênero e sexualidade em suas músicas, reivindicando assim a presença dos corpos dissidentes dentro do movimento punk – espaço que na teoria é aberto as formas de ser e existir marginais, mas historicamente reproduz em seu interior muitas estruturas de opressão e apagamento. Essa indicação se relaciona com outros nomes aqui presentes que dão ênfase à presença de corpos atravessados por gêneros e sexualidades não normativas, índices que não se desassociam de sua localização, experiências de vida, grupos sociais aos quais fazem parte, classe, raça, etc.

 

CINEMA

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GABRIEL QUADROS Morador do bairro do Tremembé, na Zona norte de São Paulo, é formado em Comunicação Social pela FAAP SP através de uma bolsa oferecida pela empresa Unilever, por meio de um programa social do qual meu irmão também fez parte. Ele tem investido mais recentemente na produção audiovisual: em 2020 realizou o curta metragem Mãepreta terra, ventre e luz. Apesar da carreira ainda inicial, a produção audiovisual de Gabriel chamou minha atenção pelo olhar sensível sobre a temática abordada. O curta-metragem coloca em cena a ancestralidade ao trazer figuras de sua família, sobretudo na relação entre a geração de sua avó e de seus netos, perpassadas pela palavra e pela reflexão sobre o momento da pandemia. A dimensão corpórea do título pode fazer pensar que este seria um filme produzido por uma mulher, mas Gabriel se rebela contra esse lugar comum e apresenta uma produção realizada por um homem cis negro e periférico, cuja família é estruturada em figuras femininas, o que reconfigura muitas ideias iniciais sobre esses marcadores sociais. Atualmente, Gabriel é bolsista do programa New Voices para roteiristas estreantes, da Fullbright Brasil, um programa de Intercâmbio Educacional e Cultural do Governo dos Estados Unidos.

 

ARTES VISUAIS

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ANA RAYLANDER MÁRTIS DOS ANJOS –  Nascida no cafundó do mundo, como ela mesma declara, está há cerca de três anos vivendo na zona leste da cidade de São Paulo. A conheci como colega de trabalho, mas conforme nossa amizade crescia, também fui adentrando em sua produção artística e me impressionando. Multilinguagem, Ana Raylander trabalha com performance, instalação, desenho, pintura, palavras e, o que acho mais interessante, produções de longa duração: seja sair todos os anos com um bloco de carnaval feito por ela mesma, ou sua transição de gênero que se relaciona com o uso incessante da cor marrom, ou o projeto de publicação de um livro colaborativo em homenagem ao artista mineiro Angelo de Aquino, cuja duração será de dez anos. A artista nunca deixa de lado sua prática enquanto educadora. Ela não se limita às temáticas e produções artísticas que esperam de uma mulher trans racializada. Ana Raylander compõe seu trabalho com sua vivência, mas sempre em relação à coletividade que dimensiona sua existência e suas experiências. Ela já fez intercâmbio em Portugal, como eu, e alguns de seus trabalhos trazem a dimensão de seu corpo em deslocamento, desterritorializado, e da palavra como espaço de aproximação e afastamento. Mas a artista também joga luz sobre as realidades nacionais através de sua pesquisa acerca da arte brasileira e alguns paradigmas culturais que nos marcam.

 

TEATRO

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TRUPE LONA PRETA – Conheci o grupo em uma apresentação teatral realizada no SESC Santana, por indicação de um amigo do movimento punk. Ao pesquisar mais sobre o grupo, descobri que foi formado na zona sul da cidade, e que surgiram a partir de experiências com os movimentos sociais de seu território. Destaco justamente a junção entre a palhaçaria e a crítica social em suas peças. O humor e a sátira são ferramentas historicamente e fortuitamente utilizadas por movimentos sociais críticos, e aqui posso também dizer, libertários. A Trupe Lona Preta se relaciona com o trabalho de Ana Raylander, que entre suas múltiplas investigações artísticas, explora a palhaçaria e o riso como instrumentos de resistência de se colocar no mundo. Mas o grupo também se alinha com as indicações que circulam no meio punk do qual faço parte, tão característico das periferias de São Paulo.

 

LITERATURA

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JHENNY SANTINE – poderia ser minha indicação de música ou teatro, pois ela é uma artista que se expressa através de diferentes linguagens. Escolhi a literatura porque foi através de sua poesia que a conheci. Estudamos na mesma universidade e pude acompanhar as várias atividades artísticas que Jhenny se envolveu ao longo dos anos. Seja na música, na interpretação ou na poesia, a artista mobiliza as palavras de forma poética e ritmada para falar sobre sexualidade, ancestralidade e o que ela chama de “afro nordestinidade”. As temáticas mobilizadas por Jhenny em sua produção artística, sobretudo na poesia, dão ênfase a uma dimensão coletiva de marcadores sociais colocados como alteridade pelo discurso hegemônico, mas que na verdade tocam um grande número de pessoas, principalmente nas periferias do país. Ser mulher, lésbica, negra, de família nordestina, não é uma excessão, e Jhenny aponta para as várias relações e inter-relações que caracterizam sua existência e seu fazer artístico – e de tantas outras como ela. Mais do que se diferenciar de outras artistas nessa linguagem, vejo Jhenny como uma pessoa que dá visibilidade para a poesia pela somatória de linguagens que utiliza e a coletividade que evoca. A artista é da zona leste de São Paulo, mas atualmente mora (ou morava até a pandemia) no CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), onde também morei até 2020.

 

MODA

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LA CHICA LIBRE – A marca autônoma é uma criação de Lita Nascimento, serigrafista moradora da zona leste de São Paulo que sobrevive através da venda de camisetas, moletons e ecobags estampadas por ela. A serigrafia é uma linguagem que foi apropriada pelos movimentos contraculturais, sobretudo o punk, cujo vestuário é muito importante para seu modo de existir no mundo, por isso acho importante dar destaque a essa produção, que muitas vezes é o meio de subsistência de pessoas que compõem o movimento. A La Chica Libre se destaca pela militância e ênfase que dá para o trabalho autônomo de uma mãe solo – suas estampas falam tanto sobre música, quanto sobre conteúdos libertários e feministas. Lita mobiliza o design gráfico e as palavras para abrir espaço para mulheres e mães dentro do movimento underground.

 

GASTRONOMIA

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RONETTO FAST FOOD –  A lanchonete nasceu em 2020 com o objetivo de levar comida fast food vegetariano e vegano a preços baixos para os moradores da zona norte de São Paulo. Esse tipo de iniciativa ainda não é tão popular nessa região, o que já faz do lugar um destaque. Entretanto, a qualidade da comida leva o Ronetto para outro nível, e apesar da proposta de fast food, a produção artesanal, os temperos e experimentações levados a cabo pela lanchonete a tornam muito especial. É um pequeno negócio que surgiu em meio a crise, mas tem tudo para ser um sucesso por sua proposta e qualidade.

 

imagem de capa: Ana Raylander Martis dos Anjos – Risadores-Brincadores