ELIANE POTIGUARA, A PRIMEIRA ESCRITORA INDÍGENA DO BRASIL

Escritora, ativista, professora, empreendedora social, Eliane Potiguara é uma das mulheres mais notáveis do nosso país. Formada em Letras e Educação pela UFRJ e extensão em Educação e Meio ambiente pela UFOP e participou de vários seminários sobre direitos indígenas na ONU e em ONGs  de várias partes do mundo.

De origem étnica Potiguara, é a primeira escritora indígena do país. Seus primeiros trabalhos foram realizados de forma independente. Nos anos 70 divulgava sua obra através de “poemas-poster” e cartilhas mimeografadas, muito antes do surgimento do movimento que hoje é chamado de literatura indígena.

Com uma trajetória impressionante, Eliane sempre lutou pela igualdade, pela liberdade e contra qualquer tipo de discriminação. Como professora, trabalhou junto a comunidades indígenas onde enfrentou uma terrível realidade. Em uma entrevista ao site UOL ela conta que sofreu muita perseguição política, que teve o nome colocado em uma lista de pesssoas marcadas para morrer e que sofreu perseguições, estupro, ameaças de morte, arma na cabeça a facão no pescoço. Tudo isso refletiu em sua obra, definida por ela como uma literatura de resistência, um grito de guerra.

Hoje, Eliane tem sete livros publicados e textos replicados em inúmeros sites e antologias. Com um trabalho cultuado e reconhecido, em 1992 recebeu um prêmio do Pen Club da Inglaterra por seu livro A Terra é a Mãe do Índio; em 2004 lançou o que talvez seja sua obra literária mais importante, Metade Cara, Metade Máscara, que através da história de amor de um casal indígena, levanta questões sobre relações humanas, paz, identidade, ancestralidade e família, exaltando o papel da mulher indígena no contexto cultural e a sua real contribuição na sociedade brasileira. Um ano depois, Eliane lançou Sol do Pensamento, primeiro e-book indígena do Brasil que pode ser baixado gratuitamente no site da autora.

Mas a importância de Eliane não se resume apenas à sua obra literária. Foi nomeada uma das “Dez Mulheres do Ano de 1988” pelo Conselho das Mulheres do Brasil por criar a primeira organização de mulheres indígenas no país, GRUMIN (Grupo Mulher-Educação Indígena), para tratar de questões de gênero, raça, etnia, meio ambiente e o empoderamento da mulher e que entre suas ações tem um programa de capacitação e formação diversas parcerias com entidades de defesa do meio ambiente e movimentos sociais. Ali, Eliane criou o primeiro jornal indígena de nosso país, um tabloide de oito páginas chamado Jornal do GRUMIN.

Em 1990 participou do Congresso dos Índios Norte-Americanos, no Novo México, que teve a participação de mais de 1500 representantes de povos nativos, e a partir desse encontro passou a fazer parte da elaboração da ”Declaração Universal dos Direitos Indígenas”, na ONU. Por esse trabalho, recebeu em 1996 o título “Cidadania Internacional”, concedido pela organização filosófica Iraniana “Baha ́i”, que prega a paz, justiça e unidade global.

Eliane também é a criadora da Cartilha De Alfabetização Indígena no método Paulo Freire, AKAJUTIBIRÓ, Terra Do Índio Potiguara, que recebeu apoio da Unesco, organizou cursos sobre saúde e diretos reprodutivos das mulheres indígenas, foi co-fundadora do Comitê Inter-Tribal 500 Anos (Kari-Oka), foi conselheira da Fundação Palmares e fez parte do Comitê Consultivo Do Projeto Mulher_ 500 Anos Atrás dos Panos, que culminou no Dicionário Mulheres Do Brasil.

Em 2011 Potiguara ganhou o título de Embaixadora Universal da Paz, uma nomeação feita em Genebra, na Suíça, às pessoas que lutam pela paz no mundo pelo Círculo Universal dos Embaixadores da Paz, entidade ligada à ONU.

Hoje, com pouco mais de 70 anos, Eliane Potiguara continua com seu ativismo e sua visão humanista. Um trabalho que merece ser sempre lembrado, estimulado, reconhecido, divulgado, replicado e acima de tudo valorizado. É uma vida inteira dedicada ao bem, enfrentando e superando dificuldades mas deixando um legado cujo inegável valor é difícil de ser estimado.

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Eliana Potiguara foi indicação da poeta, escritora, compositora, palestrante de assuntos indígenas, ambiental e amazônico, Marcia Kambeba, que participou do Debate: Nossa Língua – Insurgências na literatura produzida em português, parte da programação da primeira edição do Festival FIXE.

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Créditos das fotos:

Instagram @elianepotiguara