INDICAÇÕES CURATORIAIS DOS BOLSISTAS FIXE

A primeira edição do Festival FIXE trouxe uma proposta de conexão com jovens periféricos da cidade de São Paulo. Através de um chamamento, foram selecionados seis Curadores Bolsistas que, junto a um mentor indicado pelo FIXE, estão desenvolvendo um trabalho de pesquisa e curadoria artística para apresentar novos talentos nas mesmas áreas trabalhadas pelo festival: música, cinema (audiovisual), artes visuais, literatura, teatro e gastronomia. A cada semana apresentaremos as sugestões de um desses curadores. Hoje iremos conhecer as recomendações de Vitor Xavier, pesquisador da cultura afro-brasileira e indígena, produtor cultural, estudante de Gastronomia e multiartista. Seu trabalho é sobre legado, inovação e articulação cultural.

 

MÚSICA
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MC DELLACROIX – É uma multiartista, rapper e produtora cultural. Em sua música, é possível entender a potência em sua voz, a capacidade de reivindicar e denunciar a realidade que mata nossos corpos. Com uma visão construida a partir de suas vivências, aborda diversas temáticas relevantes para a expressão enquanto travesti no meio da cena musical. O seu flow é transformação, seu beat é diferente e carregado de identidade, a branquitude é seu alvo, aquele que é denunciado em suas letras, evidenciando as violências praticadas pelo estado genocida. Em suas performances podemos ver a sua luz, o seu axé, e sua força na prática criativa.

 

CINEMA
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VINE FERREIRA – É transcendental em suas obras audiovisuais e fotografias, que através de seu olhar sensível captam os movimentos de diversos artistas das periferias e dos lugares que percorre. Seus filmes são capazes de te aproximar das identidades, nos mínimos detalhes que compõem a realidade destas personas. Suas lentes registram a história do cotidiano de diferentes vivências que estão lutando pela sobrevivência estética, cultural e multiartística. Em sua revista, Semedo, é possível presenciar e conhecer um trabalho único e sensível, que dialoga com diversas linguagens de expressão, a música, a arte, a moda e a cultura. Vine documenta seus trabalhos como patrimônios históricos, dando visibilidade a narrativas que precisamos conhecer. Em sua página do Instagram, no Canal do Youtube e no Site da Semedo, temos a chance de aprofundar na pluralidade captada pela sua perspectiva criativa. Seus videoclipes, documentários e matérias têm técnicas complexas, com montagem, direção de arte e iluminação ricas, que complementam as histórias relatadas, dando equilíbrio perfeito para as obras audiovisuais, causando impacto direto nas emoções do espectador. É possível reconhecer sua identidade e dedicação em cada plano cinematográfico, em cada segundo gravado, em cada detalhe e corte mostrado. Pensar o cinema negro é pensar em estratégias de sobrevivência, na continuação de passos de nossa história que é permeada por dificuldades e barreiras raciais, é pensar em como precisamos construir um audiovisual que nos coloque como protagonistas na frente e atrás das câmeras.

 

ARTES VISUAIS
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UBERÊ GUELÉ – É a soma de seus ancestrais e o resultado de seu cotidiano, de sua história, de suas vivencias enquanto corpo da periferia que traz a memória e as referências coloridas de nossos antepassados negros e indígenas em suas pinturas, colagens e imagens. Em suas obras, ele denuncia, reverencia e cultua nossos fenótipos não-brancos. Nos leva para a memória transatlântica que vive em nosso âmago. Sou apaixonado pelo modo em que ele traduz tanto com linhas, cores e os personagens de suas obras, que consigo me ver em suas caricaturas, que são surrealistas e realistas ao mesmo tempo. Me vejo, me traduzo em cada traço pintado, em cada poesia imaginada, as máscaras que se evoluem em energias da natureza que poucos conseguem ver, nas entidades que nos protegem e consagram a existência do consciente coletivo. As poucas palavras escritas junto com seus desenhos são capazes de trazer textos gigantes, de memórias que foram apagadas pelo colonizador branco. Cada trabalho se ramifica como árvores que se aprofundam na terra em busca de conexão com o sagrado alimento que nos movimenta, a sabedoria, o mistério, a natureza que habita em cada um de nós.

 

TEATRO
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GRUPO CLARIÔ DE TEATRO – É uma família que acolhe as narrativas de residentes das periferias, trazendo para a “margem” peças de teatro acessíveis e capazes de transformar o nosso pensar em cena. O grupo vem de um longo histórico de permanência e luta na divisa de Taboão da Serra – São Paulo, sendo um dos únicos pontos culturais que possibilitam a integração com o território, levando arte, cultura, música e outras linguagens de expressão que transformam o ser em sociedade. Suas peças vinculam as diferentes realidades vividas nas periferias, dando espaço e evidenciando a voz de narrativas que denunciam os massacres causados pelo Estado, como também dando valor às manifestações culturais importantes que dão vida a identidade de povos brasileiros vivendo em diáspora. Clariô é de quebrada, para a quebrada, é sobre pertencimento, de trazer o teatro para estimular narrativas próximas ao seu público-alvo.

 

 

LITERATURA
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JANAÍNA NASCIMENTO – É inspiração que traz força em cada palavra escrita. No seu Instagram, transformou o seu palco, em suas publicações encara o mundo. Através de versos e textos, sua identidade aflora e toca nossa alma. A ancestralidade, que traz o passado, a certeza do presente e a capacidade de imaginar o futuro são postas em cada expressão proclamada. Ver Janaína lutando pelo acesso à educação e a importância para o pensamento negro é entender que nossa identidade também está registrada, para além da oralidade, e que estamos no hoje como seres críticos que criam narrativas para além da perspectiva branca de imaginar o mundo. Em sua plataforma, ela traz muitos consigo, a sabedoria dos provérbios africanos, referências da literatura negra para se prestar atenção, é um catálogo de talentos que usam as palavras como denúncia, sentimentos, memórias e novas visões de mundo. Escrevivências Da Alma é o nome que dá cara ao seu perfil, e nele não só Janaina mostra sua alma, mas também um exército de irmãos e irmãs que lutam por espaço nesta arte que nos leva para outros mundos. Palavra é magia, e nessa magia entendemos um pouco do feitiço e da força que a alma tem sobre os nossos desejos, reflexões e anseios de ser um corpo negro em diáspora.

 

MODA
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EUNICE – Quando pesquisamos o significado da palavra “Identidade”, uma das definições possíveis é “conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la”. Eunice em seu trabalho apresenta fragmentos de sua identidade que transpassa barreiras individuais, atingindo a coletividade como uma flecha em seu alvo, trazendo a identidade da periferia como movimento estético de afirmação política. Sua criatividade é expressa com suas peças de roupa, a cara de seu trabalho vem através de seus amigos e amigas em ensaios fotográficos realizados em territórios da periferia. O movimento de moda eurocêntrico nos empurra para longe, e olhar para a periferia e os empreendedores que aqui vivem, é transformador, é trazer para perto de nossa vivência enquanto corpos não-brancos, a oportunidade de se enxergar como criadores potentes, que usam a moda como ferramenta de transformação, de agregar em nossa trajetória a identidade que é individualizada, mas também coletiva, de lutar por espaços de construir um imaginário que fuja desta norma fruto da colonização. Nossa herança ancestral é rica, é vida criadora de tecnologias de sobrevivência, é colorida, é forte, e construir alternativas de manutenção de nossa criatividade é costurar caminhos prósperos para o nosso futuro.

 

GASTRONOMIA
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PRATO FIRMEZA – Uma das definições possíveis para gastronomia, é o estudo das diferentes formas da alimentação humana, desde o plantio, transporte e preparo dos alimentos, trazendo consigo os seus aspectos socioculturais. Sair para comer, é um ato de proporcionar uma experiência, de viver algo que fuja do cotidiano. Um dos frutos estimulados pela branquitude é pensar em gastronomia como algo “chique”, para poucos e que precisa ser caro para ter esse peso de qualidade. Recentemente iniciei minha vida acadêmica, pela UFBA, no curso de Gastronomia, e tive uma surpresa ao constatar que gastronomia não é só para as classes ricas, e que ela faz parte de todas as culturas e para todas as pessoas. Pensar em segurança alimentar é pensar o acesso seguro de alimentos de qualidade para todas as pessoas, proporcionar experiências no ato de comer é estimular a saúde. Enquanto jovens periféricos negros, vivendo nesta grande metrópole paulistana, temos uma grande dificuldade de nos integrarmos a espaços e uma luta constante para ter autoestima de viver as experiências que merecemos. Sair para comer fora é algo raro quando temos um milhão de contas para pagar, e muitas outras responsabilidades para lidar. Mas aí que está, será que sempre vamos ter que permanecer neste lugar de pouco? Merecemos muito! Merecemos ter nosso corpo acessando os diversos lugares, e vivendo experiências que nos levem a conhecer lugares novos. Prato Firmeza – O guia Gastronômico da Quebrada é diferente de todos os outros guias que vemos por aí. Mas por que? É uma iniciativa da escola de Jornalismo É Nois, que tem como objetivo formar jovens das periferias da cidade de São Paulo. Esta iniciativa já está em seu quarto volume, reunindo mapeamentos de restaurantes, bares, lanchonetes e carrinhos de comidas espalhados pela cidade. Todo o processo de construção deste guia é realizado por grupos de jovens das periferias que trazem informações relevantes de empreendedores e empreendedoras que trabalham no ramo alimentício. O objetivo do guia é valorizar estes empreendedores de territórios periféricos que são invisibilizados pela grande mídia e pelos grandes veículos de gastronomia que existem no Brasil. Quando pesquisamos algum guia de São Paulo, geralmente teremos os mesmos locais, e com avaliação a partir da visão da branquitude, elitista do centro da capital paulistana. Este guia traz todo o diferencial possível, dando visibilidade para empreendedores em sua grande maioria negros, o destaque, trazendo informações relevantes, como a faixa de preço (acessível), pratos principais, endereço, contatos, a história do empreendedor responsável, e a importância geográfica do negócio para o território. Se alimentar é um direito humano! É possível acessar gratuitamente pelo site ou comprar as versões impressas. Para maiores informações e planejar momentos e experiências gastronômicas acessíveis e únicas, acesse esse link.

 

Créditos das fotos:

Foto de capa: Instagram @ubereguele

Uberê Guelé: Instagram @ubereguele

Janaína Nascimento: instagram @escrevivenciasdaalma

Eunice: Instagram @euniceunice

Prato Firmeza: pratofirmeza.com.br