INDICAÇÕES CURATORIAIS DOS BOLSISTAS FIXE

A primeira edição do Festival FIXE trouxe uma proposta de conexão com jovens periféricos da cidade de São Paulo. Através de um chamamento, foram selecionados seis Curadores Bolsistas que, junto a um mentor indicado pelo FIXE, estão desenvolvendo um trabalho de pesquisa e curadoria artística para apresentar novos talentos nas mesmas áreas trabalhadas pelo festival: música, cinema (audiovisual), artes visuais, literatura, teatro e gastronomia. A cada semana apresentaremos as sugestões de um desses curadores. Hoje iremos conhecer as recomendações de Nathália Ract (Nara).

 

MÚSICA
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OZ GUARANI – “Nóis tá de pé, firme e forte assim que é / Se liga na fita é Hip Hop Guarani nessa quebrada / Oz Guarani chegou, Tekoa [aldeia] representou, / Satisfação total / Yvy kaguy yy opa´mbaé [a terra, a natureza e outras coisas] que é natural / Orembaé Xondaro kuery rovae orereko´ma roxauka (Nossos jovens guerreiros chegaram mostrando nosso modo de vida) / Um dia de sol, na zona oeste, Jaraguá, Tekoa / Os mano e as mina no campo jogando bola / A criançada brincando, com o sorriso no rosto / Sendo feliz, assim que é, no meu olhar / Xerexa´py aexá tekoa [No meu olhar eu vejo] é bom lugar / Mas então por que não demarcar?”

Esses versos fazem parte da letra da música O índio é forte, do grupo de rap Oz Guarani, formado pelos jovens M’byá, Jefersom Xondaro, Gizeli Paramirim e Mirindju Glowers, moradores da aldeia Tekoá Pyau, uma das cinco localizadas na Terra Indígena do Jaraguá. Mostrando a dura realidade dos indígenas na cidade de São Paulo e defendendo a demarcação das suas terras, a música tem sua relevância ampliada no atual cenário, em que assistimos ao extermínio da população indígena com a aprovação do projeto de Lei 490/2007 e a criação do ‘marco temporal’ que restringe a demarcação de novas terras e proíbe a ampliação de terras que já foram demarcadas anteriormente, além de, na prática, liberar o garimpo e o desmatamento. Minha indicação do grupo nesta categoria é principalmente pela importância de difundir o RAP Nativo como ferramenta de denúncia da histórica violência do Estado contra a população indígena.

 

CINEMA
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JENNIFER – O média-metragem foi criado e produzido por Renato Cândido, cineasta negro e mestre em Ciências da Comunicação formado pela ECA/USP, que desde o início da década de 1980 é morador do bairro da Vila Nova Cachoeirinha, na periferia da zona norte de São Paulo. A maioria das cenas é protagonizada por moradores e espaços da mesma região. O filme faz parte do projeto Menina Mulher da Pele Preta, que inclui outras quatro histórias, Dara (2012), Simone (2019), Larissa S/A e Deolinda, que ainda não foram produzidas por falta de financiamento. Esse primeiro trabalho foi realizado através do programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), da prefeitura de São Paulo. Um dos aspectos mais importantes dentro das suas produções audiovisuais é o recorte racial e de gênero. Sendo assim, o cinema do Renato, apresenta uma reflexão sobre as violências históricas contra a população negra, sobretudo contra as mulheres. Eu conheci o Renato no Centro Cultural da Juventude na reunião da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio. Como professor e referência do audiovisual, ele demonstra como o cinema pode ser uma ferramenta de construção de narrativas e difusão de pautas políticas.

 

ARTES VISUAIS
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VINICIUS GOMES E OS RETRATOS DE ALAGOAS – Com 24 anos, nascido e criado em São Paulo no bairro do Jardim Brasil, Vinícius é filho da professora de história Marli Gomes, neto da Margarida Gomes Feitoza, que nasceu no município de Acajutiba no estado da Bahia, e de Astrogildo Gomes Feitoza, que nasceu no município de Água Branca no estado de Alagoas. Este trabalho fotográfico foi realizado entre os anos de 2016 a 2020, durante as viagens para a terra natal do seu avô. Considerando os vários significados que as imagens podem acolher, a paisagem surge aqui detalhadamente, com cenas que retratam especialmente a conexão do fotógrafo com a sua família. Durante a viagem, Vinícius passou por vários lugares do sertão que resgatam histórias e memórias do seu avô. Ele também mostra que a convivência com as crianças trouxe algumas aventuras e o fortalecimento dos laços afetivos. Na Casa de Farinha, acompanhou o processo de produção da farinha de mandioca e seus métodos tradicionais herdados dos povos indígenas. Vinicius foi estudante de Comunicação visual na Etec Carlos de Campos e de Fotografia na Etec de Artes. Atualmente faz parte do coletivo RAZAO e é conhecido como artista multilinguista, fotógrafo e musicista. Seu trabalho atual abrange utilização de equipamentos de vídeo como Câmeras VHS e equipamentos de música antigos como Rádio Cassetes, vitrolas, baterias eletrônicas, samplers e teclados sintetizadores garimpados nas feiras do rolo. Para acompanhar e adquirir seus trabalhos entre em contato com o artista pelo instagram.

 

TEATRO
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CONTO NO PÉ DA ÁRVORE –  Na ocupação da Casa Cultural Hip Hop Jaçanã, localizada na Avenida Maria Amália Lopes de Azevedo, o grupo Conto no pé da árvore se destaca pelo trabalho desenvolvido especialmente com as crianças sobre as tradições orais e as histórias que formam a cultura popular afro-brasileira. A roda de samba de coco do Conto é um encontro de vozes negras que mostram a importância de ocupar diversos espaços. Formado em 2014 pela arte educadora Jéssica Rufino e membros da sua família, o grupo passou a ser conhecido pela comunidade local a partir de 2018, quando suas integrantes foram convidadas a fazer parte da Casa Cultural Hip Hop Jaçanã e passaram a realizar ensaios abertos e apresentações. Em Junho de 2019 eu fiz a gravação do último Cortejo do Boi Bumbá pelas ruas do nosso bairro. Ao final do Cortejo as batidas começaram, já eram os prenúncios do samba de coco. A dança que é típica do nordeste brasileiro traz muitas influências da cultura africana e indígena. As mulheres abriram a roda e logo ecoaram os instrumentos (ganzá, surdo, zabumba, pandeiro e triângulo) que marcavam o ritmo da dança. Em 2020 começamos a gravar o curta metragem Conto no Pé Da Árvore, durante uma série de apresentações pelas bibliotecas de várias regiões periféricas da cidade de São Paulo. Em 2021, o grupo faz aniversário de sete anos e se apresenta no Encontro do Boi Bumbá, edição virtual pela página do facebook. Vida longa ao Conto No Pé Da Árvore!

 

LITERATURA
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KITEMBO EDIÇÕES LITERÁRIAS DO FUTURO –  É uma editora independente formada por Israel Neto, 33, Anderson Lima, 38, e Aisameque Nguengue, 28, todos moradores da Brasilândia, na periferia da zona norte de São Paulo. O nome Kitembo (em quicongo: Kitembu) representa o Senhor do Tempo, tanto cronológico quanto mitológico na cultura do povo Bantu Angola. A editora surgiu em 2019 e as obras são baseadas no conceito de afrofuturismo, movimento político e cultural que nasceu nos anos 1960 e questiona o apagamento da história do povo negro. As obras literárias e histórias em quadrinhos, convidam para uma viagem no tempo que resgata a ancestralidade africana e escreve novos futuros. Entre os lançamentos estão Os Planos Secretos Do Regime (2019), Amor Banto Em Terras Brasileiras (2018), Os Três Esús E O Tempo (2021), Antologia Afrofuturismo – O Futuro É Nosso Vol. 1 E 2 (2021) e Ubuntu 2048 – Raphael Silva com ilustrações de Inara Régia (Isdruxula). A editora é uma iniciativa muito importante para o nosso território porque o trabalho vai além de produzir literatura fantástica, a Kitembo fomenta principalmente escritores e escritoras negras e organiza encontros virtuais para debater sobre literatura negra e afrofuturista. O trabalho de produção, divulgação e distribuição é feito em um espaço colaborativo na Brasilândia, que recebe pedidos feitos através do site ou pelo instagram.

 

MODA
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ATELIÊ FULORÁ – Criação de Gabriella Fernandes, 21 anos, moradora do Jardim Brasil, bairro da Zona Norte de São Paulo e participante do Programa Jovem Monitor/a Cultural na Casa de Cultura do Tremembé. O Ateliê floresceu em 2016 e as peças podem ser encontradas e encomendadas pelo perfil do instagram. É Gabriella quem faz todas as peças manualmente e também as entregas aos clientes. Nascida em Paranaiguara, município brasileiro localizado no interior do estado de Goiás, foi criada em Capinópolis, (MG). Foi por volta dos sete anos que aprendeu a crochetar junto com a sua avó na Casa Betesda, Gabrielle conta que era a aluna mais nova da turma. A minha escolha por essa moda do crochê se justifica pelo fato da atividade estar presente também na minha família como um trabalho manual praticado principalmente pelas mulheres que é passado de geração para geração.

GASTRONOMIA
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AUTONOMIA ZN – Em decorrência da pandemia de Covid-19, uma rede de economia solidária foi criada pelo Coletivo Autonomia ZN em parceria com moradores da comunidade Jardim Filhos da Terra, localizada na Zona Norte de São Paulo. O coletivo atua com geração de renda por meio da venda de produtos culinários locais e com sistema próprio de entregas para a cidade. Pães caseiros (ora-pro-nobis, coco), molhos de tomate orgânicos, brigadeiros produzidos com biomassa de banana, cacau, leite de coco caseiro e amendoim (tradicional, meio amargo e amargo), geleias artesanais (cacto mamão, jabuticaba, morango silvestre, uvaia e maracujá) e pestos de PANC são alguns produtos que fazem parte da lista do @autonomiazn.

Encomendem, além de deliciosos, vocês contribuem com o trabalho do Coletivo Autonomia ZN e com os trabalhadores da comunidade local. Para fazer os pedidos é só entrar em contato pelo whatsapp (11) 95591-9920, pelo Instagram e pelo site.

 

 

Créditos das fotos:

Foto de Capa –  instagram @vinicius.jpeg