INDICAÇÕES CURATORIAIS DOS BOLSISTAS FIXE

A primeira edição do Festival FIXE trouxe uma proposta de conexão com jovens periféricos da cidade de São Paulo. Através de um chamamento, foram selecionados seis Curadores Bolsistas que, junto a um mentor indicado pelo FIXE, estão desenvolvendo um trabalho de pesquisa e curadoria artística para apresentar novos talentos nas mesmas áreas trabalhadas pelo festival: música, cinema (audiovisual), artes visuais, literatura, teatro e gastronomia. A cada semana apresentaremos as sugestões de um desses curadores. Hoje iremos conhecer as recomendações de Kelton Campos.

 

MÚSICA
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UMA LUIZA PESSOA – Conheci a Lu em uma apresentação no Sarau da Brasa em 2019. Lembro de uma sensação inefável em relação à proposta musical à qual ela se dedica por vivermos sempre à mercê de algoritmos na produção artística e no consumo de sonoridades e imagem, em se tratando de relações periféricas e marginalizadas. Achei o trabalho muito vanguardista por tratar de especificidades da corporalidade da artista. A obra existe a partir das suas vivências, referências e formações. Mas como amo musicalidades tradicionais brasileiras, consegui identificar na hora a importância das obras da artista. Se vivemos um projeto de decolonialidade, o trabalho da Lu tem que estar em destaque. Quando a ouvi senti um grande abraço, eu amo ser abraçada.

 

CINEMA
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AVELINO REGICIDA – Teve muita participação nas minhas referências e formação dentro do audiovisual, participamos por dois anos de um projeto de performance chamado Fliperama, que aconteceu por alguns anos dentro da Brasilândia. Acredito muito no trabalho do Regicida e sua produtora, Do Morro Produções, porque é um projeto que vem resistindo desde então, por fazer parte das minhas pesquisas curatoriais e por estar próxima dos projetos que acontecem dentro da Brasilândia. Sempre esbarro com Regicida nas propostas de Audiovisual/Cinema independente, uma linguagem muito distante quando lidamos com a periferia, já que é muito mais fácil ter acesso ao mainstream do que às próprias produções locais. Regicida promoveu em 2019 o Festival de cinema anarquista no Fenda Paralela, um espaço autônomo que teve a duração de dois anos na Brasilândia, com uma curadoria impecável contemplando a América Latina como um todo e não apenas produções brasileiras.

 

ARTES VISUAIS
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BRASILÂNDIA.CO – Plataforma que fundou em 2018 um projeto com o intuito de integrar artistes da região da Brasilândia/Zona Noroeste de São Paulo, que discute práticas decoloniais em ações anti-personificadoras, uma plataforma dos desejos, das feituras, que transita em várias áreas, na produção, execução e criativos. Estando na Brasilândia vivo na ação as linguagens, percebo a possibilidade de cocriar e discutir processos. Entre 2017 e 2019, produzi muitas coisas com as pessoas do centro da cidade de São Paulo e sempre percebi a falta de interesse em expandir as curadorias dos trabalhos em relação às periferias. Reconhecendo que algumas produções não tinham “acabamentos” por falta de estruturas, resolvo me dedicar a me relacionar com artistes periféricos que propõem linguagens indisciplinares, porém dissidentes e encontros para discutir de fato a identidade BRASILEIRA, Brasil, Brasilândia.

TEATRO
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VITÓRIA ROBERTO – Sua pesquisa sobre corporalidade dentro da performance/teatro encruza muito com as minhas pesquisas pessoais. Realizamos alguns trabalhos juntos desde nossa aproximação em 2018, uma atividade muito necessária dentro da periferia, tendo como propósito romper vários estigmas que cercam sua existência. Acompanhei algumas apresentações em 2019, quando ela desenvolvia seu trabalho dentro do grupo de teatro da Fábrica de cultura Brasilândia. Amo ouvir suas histórias e o quanto a sua existência, sempre carrega reflexões dentro das estruturas institucionais, conseguindo mediar algumas propostas de negociações nos espaços, para que outros possam chegar. É um pouco triste ser a primeira em tantos espaços que existem e funcionam há anos.

LITERATURA
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RENATO KOLA – Minha relação com Renato vem desde a nossa adolescência, nos encontramos no ensino fundamental, e ele já tinha toda uma pesquisa dentro das linguagens do Hip-Hop. Por estarmos na mesma geração e desenvolvermos pesquisas comuns, nos encontramos muito. Renato é um grande amigo, ocupamos escola juntos, etc. O trabalho do Renato é extremamente importante porque ele consegue dialogar diretamente, sem tantos filtros. Seu trabalho tem uma forte relevância na rota da troca e desconstrução sobre masculinidades pretas, seu trabalho traz muita inspiração para outras referências periféricas e pretas. Acredito que através dessa grande proposta de decolonialidade e desconstrução, existe um grande atravessamento das masculinidades pretas, elas continuam sendo generalizadas dentro das perspectivas do patriarcado. Ouvir Renato Kola me traz grandes intersecções sobre outras realidades que não pertence à corporalidade masculina e preta. Também é uma grande inspiração, um artista que tem grande feituras em práticas independentes, lançando álbum, livros e performances.

 

MODA
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SHANIQUA COLLECTION – Shaniqua é extremamente importante quando penso na moda feminina e periférica. A estética dela está muito associada à geração Z, tem uma sensação de empoderamento muito forte, com peças que transitam na cena jovem, misturando favela chique com “usarei o que eu quiser não me importo com sua opinião”. Existe uma grande potência na proposta da marca, acho incrível o fato dela vestir pessoas de outras periferias, o que cria uma conexão muito especial das territorialidades, na perspectiva de moda e comportamento. Quando penso em uma moda possível sempre lembro da Shaniqua: “da quebrada, de quebrada para a quebrada”.

GASTRONOMIA
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DULCE MADRE – É um espaço localizado na Rua Parapuã, na Brasilândia. Amanda, a idealizadora do projeto, tem um cuidado muito grande ao propor uma alimentação viva e saudável. Por não comer carne há mais de dez anos, sempre tive uma imensa dificuldade de consumir alimentação mais saudável, não carnívora e acessível dentro da periferia. Engraçado como a proposta de alimentação tem uma relação muito grande com territorialidade, o que as pessoas conseguem, o que querem comer, o quanto estão dispostas a pagar por veneno ou nutrição. Sempre que é possível trocar algum papo com a Amandinha, entramos nesses longos diálogos sobre essas questões que dificultam também a estrutura da sua padaria.

 

 

Créditos das fotos:

Foto de Capa –  Série Metal Preto, Takeuchis – brasilandiaco.com.br

Artes visuais – Série Menino Prata – brasilandiaco.com.br

Vitória Roberto – @jjjujoli

Shaniqua Collection – @dan_fotografiaa

Dulce Madre – Instagram dulce.madre_confeitaria