MIRA EM AFRICA PROMOVE A DIVERSIDADE CULTURAL DO CONTINENTE

Natural Dos Dembos-Quibaxe, Província do Bengo (Angola) e morando no Brasil há oito anos, Rudmira Fula se formou em Comunicação Social e jornalismo pela UNIP e também é atriz, apresentadora e modelo. Já realizou trabalhos como produtora cultural e também é palestrante; hoje se dedica a impulsionar e divulgar seu projeto, Mira em África, dedicado a mostrar a diversidade e a riqueza cultural daquele continente. O Portal FIXE conversou com ela.

Mira em África surgiu do impacto que eu tive quando cheguei ao Brasil. A curiosidade das pessoas em querer saber da África. No entanto a ideia da África que eles traziam não é a África que eu conheço não é exatamente como é de verdade, e a forma como as pessoas se posicionavam e traziam as suas experiências e opiniões era muito deturpado, e eu dizia: Não acredito que vocês não conheçam a África. Porque no meu entender enquanto pessoa africana de Angola, e com as relações bilaterais que os países têm, isso parecia impossível. E isso quando perguntavam de Angola, porque às vezes nem vinham diretamente saber de Angola, mas da África, e eu dizia: Tá bom, mas eu não conheço a África inteira, eu sou angolana, e algumas perguntas eram muito genéricas, do tipo: lá na África é assim e assim né, vocês vivem assim na África? Isso começou a trazer algumas inquietações e percebi que algo deveria ser feito. Foi um impacto muito negativo porque pra mim isso não era possível, foi tipo uma decepção ouvir isso dos brasileiros.  Em Angola comemora-se o Dia da Amizade Brasil-Angola, que é uma festa e tanto. Mas isso só acontece lá, a nós não era dado esse valor, aqui não se fala nisso, ninguém conhece, então começou a surgir essa vontade de trazer, mostrar a África realmente como ela é. Os impactos negativos as pessoas já conhecem, mas eu me perguntava se também conhecem o positivo? Conhecem o outro lado? A África assim desenvolvida, a mulher mais rica da África, e essas coisas. Então a partir dessa experiência começou a surgir a ideia do Mira em África”, conta Rudmira.

Outra coisa necessária é o reconhecimento da importância da África que, como comenta Rudmira, há muito tempo é subestimada. “É preciso mostrar o continente africano e sua potência, porque o mundo inteiro se beneficia da África, das potências, das riquezas de lá, só que o mundo inteiro não assume isso, então é necessário provar que sem a África, o mundo não vai existir conforme é, não vai continuar no ritmo que está. É preciso mostrar o impacto que tem para as sociedades e para as nações do mundo, porque além dos recursos naturais ou minerais, temos outros recursos que são as pessoas, os humanos que estão em todas as partes do mundo. Estou falando das pessoas pretas. A vida começou na África e ponto. É importante pautar isso. E como se deu isso, como as coisas começaram a acontecer de lá pra cá? Não falar apenas da pobreza da África, a invasão; e quando se fala da invasão, não se fala de escravidão, não se fala que foi invadida, que foi roubada e saqueada, percebe?  E essas sociedades que foram o destino ao redor do mundo, precisaram da África para que começassem a se desenvolver. As pessoas negras que foram levadas, que foram sequestradas e que estão espalhadas pelo mundo inteiro, elas lá onde estão são conotadas como escravas, porque elas foram retiradas à força do continente africano, só que isso não é dito, aqui eles são escravos. Escravos vieram, foram trazidos e assim que são apresentados. Não, eles não são escravos, eles foram feitos escravos, e assim começa a se delinear como se pronunciar sobre certas questões, como se dizer certas palavras, certas frases. Dessa forma que são conotadas retiram a autoestima das suas origens Há muitos negros pelo mundo que não querem saber de África porque pensam que lá é só pobreza, é só tudo de ruim,  e a autoestima dessas pessoas se torna muito baixa. Então é importante mostrar a essas pessoas o que é a África de verdade. Não pelo olhar ocidental, mas pelo olhar africano, de quem tem África, de quem convive, e tenho certeza que estamos fazendo um resgate de valores, um resgate de cultura, da história e da autoestima do negro pelo mundo. Isso é importante, mostrar a potência que a África tem.  Essas pessoas, se elas souberem que sem a República Democrática do Congo nós não estaríamos aqui usando celulares e essas tecnologias cada vez mais renovadas, se elas souberem, as pessoas estarão cada vez mais, sei lá, fortalecidas, com orgulho de ter origem africana, e isso é muito importante”.

Esse pensamento é reforçado quando Rudmira responde sobre quem o projeto pretende atingir. “ Todos que tenham curiosidade e que queiram conhecer o mundo, mas o nosso público alvo é principalmente a diáspora africana. Mas não adianta você focar só num público, somente o nosso povo, provavelmente muitos de nós já sabem disso, mas se a gente quer mudar, quer impactar o mundo, a gente vai ter que abrir um leque de possibilidades de conversa com outros públicos”, explica.

Além de necessária, a discussão proposta no projeto é ampla, muitas coisas precisam ser mostradas, trazidas à tona e ela sabe que esse conteúdo é praticamente interminável.  ”Olha, Mire em África e um projeto histórico sócio cultural e turístico sobre a África e penso em uma série documental para a TV. A proposta é que tenha várias temporadas, porque África é isso, é um mundo, é uma imensidão. Ela é mostrada como se fosse um lugar único, uma coisinha pequena. As pessoas não têm noção de que é uma imensidão, são 55 países. Então é importante trazer essa África em sua totalidade. E para fazer isso não serão um, dois, três, quatro episódios, não tem como. Queremos ir ao fundo nas informações sobre o continente africano e a gente com certeza vai mudar o mundo e é isso que a gente precisa fazer, mudar o mundo, claro, pra melhor e construir novas narrativas, que é algo muito necessário”, diz Rudmira que completa: “Olha, existe muito desconhecimento sobre a cultura, a história e a atualidade africana, porque é uma estratégia para que a África continue sendo pensada como um lugar de coitadismo, um lugar miserável, para que as pessoas não tenham curiosidade de ir para esses lugares. Muita gente tem medo de país africano por achar que chegando lá vai ficar doente, vai morrer. Que lá não tem isso, não tem aquilo. Que o luxo que tem aqui não vai ter lá. E dessa forma a África não se desenvolve. O setor turístico é forte no mundo, muitos países vivem disso. E o continente africano tem uma vasta imensidão de lugares de cartões postais, pontos fortes para o turismo. A mídia é um aliado muito forte nessa construção de estereótipos do continente africano. As pessoas ainda confiam muito na televisão, e o que a televisão passa da África muito negativo. Hoje, com a internet, as pessoas têm possibilidade de pesquisar, mas quando se trata de África diz: eu já sei tudo. E as ONGs, essas organizações humanitárias, muitas vezes são responsáveis por repercutir essas informações negativas. Ah, deposita dois reais e você estará ajudando uma criança africana. Isso é muito forte, e conota realmente de forma negativa o continente africano. Há fome em todos os lugares, mas quando se trata da África isso rende mais. O sofrimento acaba atingindo, acaba ofuscando tudo o que o continente africano tem de bom, todo o seu potencial. E a cultura africana por muito tempo, vamos falar séculos de escravidão, até hoje acaba sendo demonizada e se não for do mal é porque é medíocre, não serve pra nós. O Brasil espelha-se Europa e nos Estados Unidos, então aquilo que o Brasil entende que está abaixo dele, não lhe interessa. E o continente africano, é visto como inferior. E aí acaba não tendo importância nem para ensinar às pessoas, não lhes interessa.

Então é importante que as academias e os meios difusores de informação sejam ensinados e sejam repreendidos na forma como trazem informação ou como passam informação do continente africano. Eu tenho uma, é complicado, só de pensar que nem os próprios comunicadores, os apresentadores, jornalistas, dão se o trabalho de fazer uma pesquisa antes de soltar uma notícia”.

O projeto teve início em 2015 e desde então Rudmira tem se esforçado para que o ele seja realizado em sua totalidade. Durante muito tempo, ela mesma foi a fonte de todos os recursos do projeto, até que em 2019 conseguiu o apoio de empresas para a realização de um piloto, mas com achegada da pandemia essas ações não tiveram prosseguimento. Também foi aberta uma conta em uma plataforma de financiamento coletivo, mas nesses tempos incertos a dificuldade para angariar fundos é grande. Rudmira, porém, faz questão de deixar claro que o Mira em África está vivo, foi apenas adiado: “Se tem alguém que queira apoiar o projeto, que entenda que é algo necessário e que vai sim agregar e que vai começar a mudar comportamentos, a pessoa pode entrar em contato comigo e trazer o seu apoio. Se for recurso financeiro melhor porque não se faz nada nesse mundo capitalista sem dinheiro. E acredito que o Mire em África não chegou ainda onde tem que chegar por falta de recursos financeiros. Eu tenho recebido o apoio de artistas, eu fiz há pouco tempo um encontro, um bate papo com vários artistas, intelectuais, produtores e foi maravilhoso, um encontro de 5 horas. Eu lá apresentando o Mire em África, entrevistando algumas pessoas, enfim, foi maravilhoso”.