O TEATRO DE RESISTÊNCIA DO GRUPO ELINGA

A história do teatro em Angola se confunde com a do Elinga, um dos principais grupos teatrais daquele país que está completando 33 anos de existência e de resistência. Com 57 peças, já se apresentou em 29 cidades de 9 países e marcou presença em mais de 40 festivais internacionais.

Criado no dia 21 de Maio de 1988, o Elinga (palavra do dialeto Ubuntu que significa ação, iniciativa, exercício), enfrentou momentos difíceis. São muitas as histórias de dias em que os atores dormiram no teatro por conta dos toques de recolher ou peças realizadas à luz de velas por conta dos ataques às redes de energia durante a guerra civil angolana.

Com o passar dos anos o Elinga Teatro se tornou uma referência cultural de Luanda, um espaço multidisciplinar que recebe e promove exposições, performances, dança, espetáculos musicais e atividades educativas. Apesar de toda essa importância, o grupo luta há quase uma década para permanecer em sua sede, um edifício construído pelos portugueses no século dezenove que já abrigou um colégio e chegou a ser classificado pelo governo como “testemunho do passado colonial” e declarado monumento histórico em 1981. No entanto, em abril de 2012 o ministério da cultura revogou esse status e emitiu uma ordem de despejo. A causa foi a implementação de um projeto urbanístico no local que prevê a contrução de um centro comercial. Enquanto a especulação imobiliária não vence, o grupo continua em sua sede, recebendo apoio da população e até da imprensa internacional, promovendo discussões e negociações sobre a reclassificação do edifício e reforçando a importância do local como o berço de importantes movimentos artísticos. A luta da manutenção da sede foi um dos assuntos do documentário Elinga Teatro 1988/2018, dirigido pelo brasileiro Paulo Azevedo, que narra missão e história de resistência de teatro angolano.

Apesar de ultrapassar as três décadas de existência eles ainda se consideram um grupo amador. A afirmação foi feita por um dos fundadores, Mena Abrantes, ao falar das limitações em termos de recursos humanos e materiais, e o quanto conseguem extrair da entrega e potencialidade dos seus elementos. Na mesma entrevista, dada à revista eletrônica Repertório, ele cita o escritor angolano Manuel Rui, que classificou o Elinga como “um grupo militante do teatro”, e que em sua opinião é a expressão que melhor os define. Em seus espetáculos é comum que a própria trupe cuide dos cenários, iluminação, som e figurino. Segundo Mena Abrantes, curiosamente, não existe em Luanda nenhuma escola dedicada à formação de profissionais de teatro.
Embora ocasionalmente aconteçam workshops com técnicos estrangeiros, na maioria das vezes o trabalho é realizado de forma espontânea, criativa, e isso talvez seja um dos principais elementos que determinam a linguagem e a personalidade dos espetáculos do grupo, reconhecido e respeitado internacionalmente.

Há quase 20 anos vivendo na incerteza e na iminência de perder seu espaço, o grupo continua sua missão de levar cultura à população de Luanda e acima de tudo escrevendo sua história de resistência cultural.

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Elinga Teatro foi indicação da chef Marcia Lousada, que participou da primeira edição do Festival FIXE. Nascida e criada em Luanda, Angola, é formada em gastronomia e professora na área hoteleira.