O UNIVERSO FEMININO NA ARTE DE SILVANA MELLO

Acesse a exposição virtual de Silvana Mello na Galeria FIXE.

Nascida em Porto Alegre, RS, Silvana Mello se mudou para São Paulo em 1993, onde trabalhou em diversas áreas ligadas à arte. “Eu já havia tatuado, trabalhado com moda, feito vinhetas em animação pra MTV, fui assistente de curadoria na bienal, fiz ilustrações pra revistas e marcas e até fazia silk em camisetas com meus desenhos para vender em shows.”, conta. Além de inúmeros frilas como ilustradora Silvana também produzia todo o merchandising do Lava, banda da qual foi vocalista por onze anos. “Acho que a maioria de nós naquela época, que estivesse envolvido com o rock, fazia um pouco de tudo, dos cartazes com colagens pra chamar pros shows, desenhávamos a arte pras camisetas, adesivos, patches, e depois silkávamos em casa. Na real sempre fiz minhas coisas, mas com arte autoral, a primeira vez que me lembre, foi quando produzi três peças em bordado pra um festival feminista, o Ladyfest, que rolava no Hangar 110.” Conta Silvana, que hoje reconhece que talvez, sem perceber, fosse influenciada pelo impactante trabalho de Artur Bispo do Rosário. “Durante mais de um ano eu ficava todas as tardes trabalhando na manutenção do Imagens do Inconsciente. Quando me convidaram pra participar de uma mini exposição no festival, fiz meus primeiros bordados. Tive minha primeira mostra individual na MoST, que foi a primeira loja/galeria de street art de São Paulo, localizada no Centro, na galeria do rap, mas lá não houve venda. Foi na galeria Choque Cultural que pela primeira vez montei uma exposição em que pude vender minhas obras, e foi ótimo, a partir dali comecei a enxergar o que eu queria dizer, conhecer pessoas do meio da arte. Vendi todas as peças. Conheci o Baixo Ribeiro e a Mariana Pabst Martins, donos da Choque Cultural na casa da Alê Briganti e do Farofa, (Alexandre Cruz, músico e artista plástico, também conhecido como Sesper), e depois encontrava com eles nos shows. Quando eles abriram a galeria o Baixo foi em casa, viu alguns dos meus trabalhos, e me chamou pra expor, e passei a ser representada pela galeria durante seis anos.” Durante esse período Silvana realizou de inúmeras exposições em São Paulo, Rio de Janeiro, Los Angeles e no Reino Unido. Embora hoje Silvana ainda tenha algumas peças em galerias como a Samba, no Rio de Janeiro, hoje trabalha de forma independente.

Com um trabalho totalmente figurativo, Silvana utiliza diferentes técnicas como bordado, colagem e pintura em diversos suportes em uma produção com forte cunho autobiográfico na qual evoca personagens e lugares que de alguma maneira habitam suas memórias e seu passado. A música, a cultura pop, o skate e o universo feminino tem forte presença em sua arte. “Acho que tudo está ligado e é muito necessário que se fale. Não faço de uma forma muito calculada, deixo fluir bem, geralmente nem tenho essa intenção, mas percebo que na maioria das vezes pinto mulheres em situações de força e segurança. Tento me informar sobre o que acontece a mulheres no mundo, e é uma prioridade pra mim que a gente consiga ter os mesmo direitos, por isso tento agir de forma coerente na vida e isso consequentemente vai refletir no meu trabalho”, diz Silvana.

Em 2019 Silvana decidiu deixar o Brasil. Atualmente reside com sua filha em Estoril, no litoral português. “Vim pra Lisboa no meio de 2019, com a vida dentro de duas malas, cheguei e fiquei resolvendo burocracias, aí veio a pandemia. Aproveitei pra começar a montar um acervo, que está em andamento, pois não trouxe nada comigo. Antes de vir fiz um leilão no Caos, junto com a Keila Alaver (que estava vindo morar na Espanha) e vendi quase todas as peças que ainda tinha. Pela primeira vez tenho a oportunidade de fazer pinturas sem pressa, no meu tempo, e estou aproveitando o momento de tanto isolamento pra repensar o que sinto vontade de fazer, sem pressão”.

Quando questionada se Portugal se tornou uma influência em seu trabalho Silvana responde rapidamente: “Acredito que totalmente. Acho que já sofria influência, principalmente se pensarmos nos azulejos. Eu vivo na Costa de Lisboa, convivo todos os dias com as belezas naturais, me encanto com o mar, cores dos céus, pássaros, gaivotas, pedras, a vegetação, as pessoas. Tem muita história gritando todo dia, referências que para nós brasileiros são muito familiares. Tenho pintado meninas em seus quartos, acredito por ter uma adolescente em casa, e durante a pandemia todo o mundo dela ficou restrito a quatro paredes, com perspectivas incertas, mas cheias de vontades e sonhos. E senti vontade de falar sobre isso. Mas também tenho pintado séries de mar”.
Apesar de todas as dificuldades causadas pela pandemia, Silvana soube aproveitar esse tempo no novo país e olha o fituro com tranquilidade: “Tenho o privilégio de estar em um momento de autocuidado, estudo. Pretendo seguir pintando, se tiver uma oportunidade de mostrar por cá, vai ser ótimo, se não tudo bem também. Eu ainda não conheço muita gente em Portugal, já me disseram que a cena é fechada, mas sei que existe muita gente boa e talentosa, quem sabe. Vamos veire.”