OLINDA BEJA: A ESCRITA É UMA ÂNCORA QUE ME SEGURA À VIDA

Considerada um dos grandes nomes da literatura de São Tomé e Príncipe, Olinda Beja nasceu na cidade de Guadalupe, mas mudou para Portugal com apenas três anos de idade. Lá cresceu, estudou e obteve o Diploma Superior de Altos Estudos da Alliance Française e o diploma de licenciatura em línguas e literaturas modernas pela Universidade do Porto, onde também se especializou em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Viveu por cerca de dez anos na Suiça onde lecionou e aprofundou seus estudos.

Aos 37 anos voltou à sua terra natal e foi arrebatada pelo carinho de sua família materna, pelo acolhimento do povo local e as belezas de seu país. Redescobriu suas raízes, a história que lhe foi sequestrada, despertou sua poesia e então decidiu divulgar tudo isso através de suas obras. “Uma redescoberta dramática, mas bela, poderosa e muito forte, que se me entranhou mesmo no corpo. O deslumbramento foi tal que começo novamente a escrever. Toda a minha escrita é, de fato, uma escrita africana”, afirmou Olinda em uma entrevista dada em 2010 ao Anuário Internacional de Comunicação Lusófona.

Ao falar de suas influências, Olinda cita poucos autores portugueses, diz que gosta de José Saramago, cita o brasileiro Jorge Amado, mas deixa clara a sua predileção: “…Há um sabor diferente na literatura africana, uma visão, há até um recriar paisagístico que nos transporta para além do horizonte. Eu costumo dizer que quando nós lemos um autor africano, por pior que ele seja, há sempre uma magia, talvez porque o escritor africano ainda se apoia nas raízes, na ancestralidade.” Afirma Olinda na mesma entrevista.

Com uma obra extensa que inclui romances, poemas, contos e até obras infantis, Olinda costuma dizer que escreve quando o coração lhe pede. E a busca por inspiração inclui viagens, vivências, observações e a herança de uma tradição oral de seu povo que atravessa gerações.

Talvez inspirada por isso, Olinda também é conhecida como contadora de histórias. Acompanhada pelo músico Filipe Santo, viajou por diversos países do mundo fazendo recitais e divulgando seu trabalho.

Com um reconhecimento que inclui vários prêmios recebidos em São Tomé, Brasil e Portugal, seus livros já foram publicados em oito idiomas, já se tornaram objeto de estudo em várias partes do mundo como Portugal, Suíça, Luxemburgo e em muitas universidades brasileiras.  Olinda tem também trabalhos publicados na Universidade de Frankfurt, sobre a língua materna de S. Tomé, além de inúmeros trabalhos publicados em coletâneas, revistas e livros didáticos.

Aos 75 anos Olinda continua na ativa, levando sua alegria e sua arte aos quatro cantos do mundo, divulgando a cultura de São Tomé e Príncipe e entendendo o alcance e o poder da lusofonia, definida poeticamente por ela como “… uma ave migratória que está no coração de todos nós! Enquanto a quisermos ter, é darmos as mãos e fazermos todos as mesmas migrações…”.

 

Obras de Olinda Beja:

 

Bô Tendê? – Poemas – 1992

Leve, Leve – Poemas- 1993

15 Dias de Regresso – Romance – 1994

No País do Tchiloli – Poemas – 1996

A Pedra de Villa Nova – Romance – 1999

Pingos de Chuva – Conto – 2000

Quebra-Mar – Poemas – 2001

Água Crioula – Poemas – 2002

A Ilha de Izunari – Conto – 2003

Pé-de-Perfume – Contos (Bolsa de Criação Literária) – 2004

Aromas de Cajamanga – Poemas – 2009

O Cruzeiro do Sul – Poemas – 2011

A casa do pastor – Conto – 2011

Histórias da Gravana – Contos – 2011

Um grão de café – Conto infanto – juvenil – 2013

À Sombra do Oká – Poemas – 2015

Tomé Bombom – Conto infanto – juvenil – 2016

Chá do Príncipe – Contos – 2017

Simão Balalão – Conto infanto – juvenil – 2019

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Olinda Beja foi indicação da cineasta são-tomense Katya Aragão, que participou da primeira edição do Festival FIXE com o filme Mina Kiá, exibido na mostra de cinema lusófono. Jornalista por profissão, atualmente trabalha na finalização do longa Muncanha, com previsão de lançamento para 2022 e que poderá se tornar o primeiro filme de seu país a ser exibido na plataforma Netflix.