PARA O BRASIL, TUDO COMEÇOU NUM 22 DE ABRIL

Segundo a história oficial, o Brasil foi descoberto no dia 22 de abril de 1500. O termo “descobrimento”, no entanto, é contestado por alguns historiadores, que preferem utilizar a palavra “conquista” para descrever o acontecimento histórico. Afinal, como nosso país poderia ser descoberto se essas terras já eram habitadas?

A questão aqui se refere ao etnocentrismo dos portugueses daquela época, que se colocavam como centro do mundo e achavam que os indígenas não conheciam e nem tinham direitos ao seu próprio território. As dúvidas, porém, vão além do termo utilizado, pois muitas pessoas refutam o pioneirismo de Cabral. Há quem diga que outro navegador português, Duarte Pacheco Pereira, já havia constatado a existência das terras brasileiras dois anos antes, explorando regiões onde hoje ficam os estados do Pará e Maranhão, o que foi mantido em segredo para evitar que os espanhóis chegassem ao nosso território. Existem também afirmações de que o italiano Américo Vespúcio tenha navegado em nossa orla e que o espanhol Vicente Yañez Pinzón esteve aqui três meses antes que Cabral.

Outra questão diz respeito à ideia de que o Brasil teria sido descoberto por acaso, após um desvio de rota por conta do mau tempo. Segundo Paulo Pinto, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, “A armada tinha como destino a Índia e tocou a costa brasileira por acidente. É possível que Portugal já suspeitasse da existência de terras naquela região, mas a verdade é que Cabral e seus homens foram apanhados de surpresa. A chegada ao Brasil foi, portanto, um acidente de percurso de uma jornada que tinha objetivos estratégicos bem definidos. A Índia era a prioridade número um da coroa de Portugal.”

Essa teoria, no entendo, já é refutada e a intencionalidade da viagem ao Brasil é aceita pela maioria dos historiadores.

O que sabemos, de verdade, é que naquele momento começou um processo de colonização das terras brasileiras, que envolveu extermínio de povos originários, aculturação imposta, domínio de território e exploração de recursos naturais, como era hábito das sociedades européias colonizadoras naquela época. E também que começou a formação do país em que hoje vivemos, o quinto do mundo em território, o sexto em população e o maior país lusófono do planeta.

Após alguns séculos como colônia, em 1808, a capital do reino foi transferida para o Rio de Janeiro, quando a família real fugiu com medo das tropas de Napoleão invadirem o território português. Em 1815, o Brasil se tornou um reino unido com Portugal e, apenas sete anos depois, Dom Pedro I proclamava a independência do Brasil às margens do Ipiranga.

Após um período imperial, um golpe militar chefiado pelo Marechal Deodoro da Fonseca transformou o Brasil em uma república. Desde então, nosso país passou por diversos momentos históricos em que a democracia foi interrompida por regimes autoritários, como no golpe de 1964, que deu início a um dos períodos mais obscuros da história e atingiu seu ápice com o AI-5, um ato institucional emitido pelo presidente Artur Costa e Silva no dia 13 de dezembro de 1968, que suspendia qualquer garantia constitucional, autorizava intervenções, perda de mandatos, a censura nas artes, televisão e à imprensa, a proibição de reuniões e manifestações políticas não autorizadas e serviu para institucionalizar a tortura como instrumento de punição e investigação pelo estado. Muitos brasileiros e brasileiras perderam suas vidas apenas por discordar de todo esse autoritarismo absurdo e canalha.

Foram necessários 20 anos para que o AI-5 fosse anulado, o que aconteceu em outubro de 1978, ainda sob o governo militar de Ernesto Geisel. Com o relaxamento da opressão, começaram a surgir movimentos populares pedindo eleições diretas. O primeiro presidente não militar após a ditadura foi Tancredo Neves, eleito ainda de forma indireta, que às vésperas da posse foi internado com diverticulite e morreu sem assumir o mandato, sendo substituído por seu vice, José Sarney. As primeiras eleições diretas do período pós militar aconteceram em 1989, com mais de 20 candidatos e que foi vencida por Fernando Collor de Mello, que acabou perdendo o mandato após um impeachment em 1991. (Pra quem não sabe, a Lei Rouanet de apoio à cultura é dessa época).

Desde então o Brasil teve seis presidentes. Luiz Inácio da Silva, o Lula, do PT, teve dois mandatos, seguido pela primeira mulher a ocupar o cargo de presidente no Brasil, Dilma Roussef, também do PT e que foi vítima de um golpe que articulou seu impeachment e a tirou do poder em 2016.

Hoje o Brasil passa por um momento político turbulento, com um presidente de extrema-direita que flerta com o autoritarismo, celebra a ditadura, elogia torturadores, não respeita a igualdade de direitos, desdenha da pandemia, pratica a censura, usa leis da ditadura, faz ameaças de um novo golpe militar, apoia manifestações antidemocráticas, é contra a preservação ambiental e pratica uma política explícita de desmonte da cultura. Tudo isso têm afetado seriamente toda a sociedade brasileira.

O setor cultural é um dos que mais sofre no país. Além de ser combatido pelo atual governo, ainda tem que lidar com a impossibilidade dos eventos presenciais devido à pandemia do Coronavírus.

“Tivemos que nos reinventar e ser mais criativos do que nunca para manter as indústrias culturais no Brasil vivas. Somos um povo “heavy user” de internet e redes sociais, o que nos ajudou a não ficar parados durante o isolamento social. O Brasil domina as ferramentas virtuais e demonstrou um grande talento para criar produtos artísticos para o ambiente digital, assim como um grande interesse no consumo dos mesmos”, acredita Fabiana Batistela, diretora da Semana Internacional de Música de São Paulo (SIM São Paulo) e do Festival FIXE.

Todas essas questões atuais sobre o Brasil também chamaram a atenção para vozes que até pouco tempo não eram notadas pelo mercado, como nota o jornalista Camilo Rocha: “A produção cultural brasileira atualmente acontece em cenário de extrema adversidade, da pandemia ao contexto político anti-cultura. Pensando na música e na literatura (artes visuais acompanho menos e cinema acho que tem suas particularidades), o Brasil segue um caminho que temos visto em vários países, que é o de finalmente permitir que se conheça vozes e histórias mais diversas, vindas de recortes que tinham menos espaço até pouco tempo atrás, como mulheres, pessoas negras, pessoas trans, pessoas fora do eixo sudestino etc, de Jadsa a Jarid Arraes, de Jup do Bairro a Itamar Vieira. Essas vozes são importantes, merecem e precisam ser ouvidas e sua mensagem ampliada, só assim poderemos lutar contra todo esse absurdo que estamos enfrentando, e melhorar nossa confiança em um futuro melhor para todos, em todos os sentidos.”

BRASIL:

Nome oficial: República Federativa do Brasil

Extensão Territorial: 8.515.767 km2

Localização: América do Sul

Governo: República federativa presidencialista

Capital: Brasília

Idioma: Português

População (estimativa IBGE) – 212.984.640

Moeda: Real

Independência de Portugal: 7 de setembro de 1822

 

Foto: performance do grupo Bloco da Laje na abertura da Semana Internacional de Música de São Paulo em dezembro de 2019, da fotógrafa Filipa Aurélio.