VICTOR BALDE: “É ATRAVÉS DA PRODUÇÃO DE IMAGENS QUE CONTAREI HISTÓRIAS”

Acesse a exposição virtual de Victor Balde na Galeria FIXE.

Victor Balde é formado em jornalismo, já trabalhou como body piercer, e foi justamente para documentar esse trabalho que ele comprou uma câmera semiprofissional de um amigo em 2007. Pouco tempo depois, esse amigo, Filipe Berndt, o visitou em Aracaju e eles partiram juntos para algumas viagens. Uma delas, a um acampamento do MST na cidade de Malhador, foi decisiva para a mudança de vida de Victor.

“Aquilo ali eu acho que foi essencial pra entrar no mundo da fotografia apesar da gente ter ficado lá sei lá um turno só, acho que quatro ou cinco horas mais ou menos, foi uma coisa que mudou muito a minha cabeça. Começar a ouvir as histórias daquelas pessoas, ver um pouco daquelas famílias, daquelas casas… Até ali eu nunca tinha parado pra estudar nada de fotografia, tudo que eu fotografei foi através do modo automático da câmera, mas quando eu mostrei o resultado pro Filipe, ele gostou muito do que eu tinha fotografado e me incentivou a mandar pro pessoal do MST. Acabei mandando e tive fotos publicadas em duas edições da revista nacional dos Sem Terra; uma delas inclusive foi capa e isso me incentivou muito a entrar de cabeça no mundo da fotografia”.

Nessa época, Victor produzia shows de punk e hardcore em Aracaju e sempre que esses eventos aconteciam ele também fotografava as bandas. “Minha base de fotografia tem esses dois caminhos, a música, pelo fato de ser produtor de shows, e a outra vertente, que tem uma boa área de interseção, muitas coisas em comum, é o fotojornalismo. Me formei jornalismo e naturalmente meu encanto era pelas matérias de fotografia. Fui da última turma da universidade que eu fiz lá em Aracaju que teve fotografia analógica, então foi mágico poder acompanhar todo o processo de revelação dos filmes. Cada coisa dessa só me fez ter mais certeza do que eu queria”, conta Victor.

Em 2008, aconteceu uma pequena revolução no mundo do audiovisual com o lançamento da câmera Canon 5D Mark II, uma DSLR que, além da fotografia, possibilitava a gravação de vídeos em Full HD e se tornou um sucesso entre fotógrafos e videomakers. Munido de uma dessas câmeras, Victor começou a explorar também essa outra linguagem. “Meu início com os vídeos, foi bem incentivado pelo recurso de gravação estar presente na 5D Mark II que eu tinha adquirido. Eu acho que talvez tenha sido a câmera mais vendida da Canon, já aliando esse recurso do vídeo, então meio que uma geração assim que que comprou essa câmera começou a fazer vídeos, estudar. Foi algo assim que surgiu por causa do dispositivo, mas que eu tenho me jogado muito. Não vou saber precisar o ano, não sei se foi 2010 ou 2011 que eu comprei essa câmera, mas mudou muito, porque você tem a relação natural e óbvia entre a fotografia e vídeo, mas também tem todo esse pensamento de criar essa narrativa da história que você quer contar com cada vídeo. Estou cada dia mais fascinado com os vídeos e essa forma de contar histórias”, diz.

O trabalho de Victor, seja em fotografia ou em vídeo, traz uma característica comum que é uma visão humanitária. “Os dois pilares do meu trabalho são a fotografia de música e a fotografia documental / humanitária”, explica o fotógrafo, que completa: “A fotografia me possibilitou ter por perto pessoas que com sua música me fizeram evoluir como pessoa, me questionar diariamente sobre vários temas (desde o veganismo até o racismo estrutural), perceber o quanto sou privilegiado e a partir da consciência disso, escolher as lutas que eu me tornaria aliado”, conta.

Em sua carreira Victor já fotografou inúmeros eventos, incluindo diversos festivais no Brasil e no exterior, realizou ensaios, em 2012 lançou junto com Arthur Soares o livro Snapic- Música pra ver (o primeiro com esse tema lançado em Sergipe), realizou cinco exposições, dirigiu videoclipes, captou imagens para o documentário AmarElo, do Emicida, e em 2014 realizou o filme O Som da Selva, que acompanhou a turnê da banda sergipana Renegades of Punk por 20 cidades da Europa.

Em 2017, viaja à África, onde realiza o documentário Todos Podem Ser. “Acho que os documentários são uma ferramenta com muito potencial, que segue crescendo muito. Eu acho que é uma maneira incrível de contar histórias, trazer a realidade, expor situações. O Todos Podem Ser surgiu com a descoberta do trabalho da ONG Reviva, aqui de São Paulo, através do Instagram deles, e comecei um contato querendo entender como funcionaria pra você tentar ser fotógrafo e cinegrafista voluntário deles na expedição de 2017. Mandei portfólio, eles curtiram o meu trabalho e daí surgiu esse documentário Todos Podem Ser, que foi todo rodado lá em Moçambique e traz bem a proposta de contar e como que a experiência de ser um voluntário da ONG lá em Moçambique, que sai daquele padrão de voluntariado que a gente conhece. Eles trabalham muito com a transformação social das comunidades com desenvolvimento social, não apenas aquela ideia de doação. O foco deles é que as comunidades que eles atendem busquem essa autonomia então foi isso que a gente tentou mostrar”, conta Victor.

Durante essa viagem à África ele também realizou um grande trabalho fotográfico em Moçambique. Parte dessas fotos formam a série Capulanas que pode ser parcialmente vista aqui na exposição virtual em cartaz na Galeria FIXE.

Outro projeto bastante interessante é Terras de Origem, primeiro longa-metragem de Victor. “É o meu projeto mais extenso até agora, começou em 2017, realizado com os povos originários Kariri-Xocós, de Porto Real do Colégio, em Alagoas, e eu vou finalizar esse trabalho agora em julho, após quatro anos. O fato de eu ter mudado para São Paulo em 2018 com certeza atrasou bem, porque não era mais tão fácil ir lá fazer mais captações.  Antes eu morava a uma hora e meia de Aracaju pra lá. Eu já imaginava que ia complicar muito processo, mas nesse mês eu chego no corte final do filme e a gente está começando a inscrever em festivais e agora vou entrar nesse processo pra buscar parceiros de distribuição do filme”. Incansável, Victor ainda fala sobre outros projetos: “Sobre planos futuros o que eu tenho de material já captado, que falta editar, vai ser um documentário um curta metragem que foi rodado em Maratane, um campo de refugiados lá no norte de Moçambique que tem pessoas do Congo, do Burundi, da Tanzânia, então esse é o próximo projeto que já está captado falta entrar nessa maratona que é a edição. Acredito que no final do ano deve sair esse trabalho, pra fechar esse 2021”.